Sempre me senti colonizado

Sempre me senti colonizado jadiel lima amar é bicho

Lá por casa sempre andou muita gente e comum o estereótipo de amigos brancos da família, gente viajada, vinda da cidade ou de algum canto mais chique, que entende o Brasil, pessoas liderosas e decididas, prontas pra nos mostrar coisas melhores.

É porque gente que é viajada, branca e que vem da cidade ou de um canto mais chique sabe mais que o povinho que vive isolado no sertão/na praia semi-deserta, nós de casa, esse povinho ingênuo que não conhece as coisas, não conhece a verdade.

A verdade é suja, arrogante, prepotente e sem orelhas, vaidosa, o conhecimento tem nariz empinado, é bonachão, incapaz de concordar e desrespeitoso com as mulheres. Com as mulheres e as crianças, pois o varão da casa, negro, mas estudado, até, merece lá alguma dose de respeito. É inteligente, até. Há o que extrair da companhia dele.

A ingenuidade, que quase não fala, com uma malícia sem destreza para piadas, com um pensamento bobo, com lentidão nos olhos, com a beleza encolhida pela inveja da cor mais clara e das tecnologias todas da verdade, se guarda, se demora dentro dos gestos, não imediata palavra alguma. É fadada à paciência da água que trabalha na pedra pontuda.

Hoje a gente branca está doente, pede cantigas de cura, pede por chá de ervas, pede por orelhas atenciosas. Gente branca está sem sentido. A cidade já subiu pra testa e lhes descasca as sobrancelhas, lhes franze a testa e apaga as pupilas. Gente preta continua encolhida e a cidade sempre lhes subiu à testa, lhes descascou as sobrancelhas, lhes franziu a testa. A gente preta sempre teve esse jeito meio errado, esse dedo reclamão, não se contenta com nada.

Gente branca pede pra esquecer, que pra ficar tudo bem é só eu não me sentir discriminado. Que, se eu não me sentir discriminado, vai melhorar tudo. Gente branca quer que eu esqueça. Mas gente branca, gente vinda da cidade ou de um lugar mais chique morre de falar no sobrenome da família. E não é disso que eu não esqueço? Do sobrenome da tua família.

Sai pra lá, dono de tudo
Dono da casa dos outros
Fala alto, escuta pouco
Todo canto quer mandar

Vovó Neném
Me pediu a paciência
Gente assim dessa ciência
Só vê o material

Ignora de poesia
De matéria de silêncio
E por isso subestima
O que não pode comprar

Ignora de humildade
Ele é gente da cidade
Um dia há de melhorar

Ele é gente da cidade
(Ele é gente da cidade)
Capital, centro do mundo
E, por certo, não aprendeu
Respeitar, olhar no olho
Um matuto como eu

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