Se é culpa de meu espírito encarnado

Pessoinha vem me perguntar se eu tinha vontade de ter barba. Eu, de fenótipo descendente de indígenas e negros, tenho uma barbicha e um bigode bem ralos para o seria o”normal” pra alguém da minha idade. Normal diga-se os amigos brancos de Pessoinha. Pessoinha e seus amigos brancos não se tocam que minha maneira de ser é outra, minha forma de pensar é outra,  minhas necessidades são outras, minhas prioridades são outras. 

Um jovem branco perdido na vida pode pensar em recuperar a autoestima que teve na infância ou em alguma fase da vida. Nem na minha infância eu tive isso, fora do contexto familiar (sim, minha família me amou e me ama muito, e isso é imenso privilégio já). Porém pros amigos brancos da minha família, pra qualquer coleguinha da escola, pra qualquer pessoa na rua eu sentia como um ser secundário, uma criança de segunda importância perante as crianças brancas, principalmente se elas também vivessem na cidade grande. Eu sou do litoral, beijos.

Na minha adolescência, entre 2006 e 2011, numa região metropolitana, as referências negras não chegaram em mim em relação ao modo de me vestir, ao que eu ouvia. Todas as minhas identificações de cultura adolescente era com gente branca, hiper-branca, de Nx Zero a 30 Seconds to Mars, Los Hermanos e Oasis. Talvez por consequência de nos filmes e desenhos animados, aos que assisti durante toda a infância, só existirem protagonistas brancos e só divulgarem cultura branca pop até hoje. Eu olhava os clipes na TV União e ficava desejando ser aqueles caras da pele enevoada e dos cabelos esvoaçastes e lisos, hiper-lisos. Fiz chapinha três vezes e não digo que não curti.

Depois que desisti de ser emo, porque não tinha dinheiro pra comprar pulseiras legais nem coragem pra pintar o cabelo, veio o gosto por coisas mais “pesadas” tipo Linkin Park e Led Zeppelin. (Poxa vida, cadê Muddy Waters, Jimi Hendrix, James Brown, Tupac, Nina Simone, Miles Davis, Clinton Fearon, Bob Marley, Lee Scratch Perry, The Absynians, The Congos, Itamar Assumpção, Otis Redding, Selma do Coco, Cila do Coco, Glorinha do Coco, Chico César, Elizeth Cardoso, Clementina de Jesus, João da Baiana, Gilberto Gil, Luiz Melodia, Mateus Aleluia, Black Alien, Pinxinguinha, Eva Aylon, Ruben Rada, Jards Macalé, Jorge Ben, Naná Vasconcelos, Academia da Berlinda, Fela Kuti, Juçara Marçal, a própria percussa de Cordel do Fogo Encantado, Nação Zumbi e Chico? Eu vim escutar Itamar um dia desses!)

Sem referência, com esse corte, esse apartamento da minha própria cultura, do meu próprio segmento de origem, sem VER em quem me apoiar, sofri as discriminações reservadas à gente do meu tipo em solidão, quando usava cabelo grande, quando tentava paquerar alguém (reconhecendo que na época de colégio eu era bem mais opressor que hoje), quando precisei de um táxi e ele me interrogou pra saber se eu não iria assaltá-lo, quando eu mesmo não me achava bonito, quando nunca entrei pras fotos que usavam como propaganda do colégio particular onde estudei (fui primeiro lugar no Enem das duas turmas de pré-vestibular, só pra registrar mesmo), quando um aluno sulista me chamava de preto-filha-da-puta e isso passava por um insulto qualquer.

Eu vim reconhecer pra valer minha negritude somente após entrar na universidade, e demorou uns anos ainda. Veio ficar mais forte quando conheci um certo caba lá do Cabo Verde e quando entrei na capoeira. Percebi meu pai, percebi minha família, minha terra natal.

Não estou aqui pra dizer que eu não seja invejoso e inseguro. Quero perguntar se isso é minha responsabilidade apenas. Se eu sou mesmo o total responsável por não ver o que 516 anos têm tentado apagar. Se é culpa de meu espírito encarnado. Quero saber onde nasce a autoestima do homem branco e por que a do homem negro parece ser sempre lá embaixo, porque nos espaços “mistos” o negro quase sempre é coadjuvante, por que o neguinho fica sempre tão miúdo, quando não revoltado, marginal. Quero saber por que tem tanta mulher negra sem autoconfiança e porque a mulher branca classe média, mesmo sem confiança parece ter o mundo a seu dispor pra dar apoio, dar cafuné. Quero saber por que minha vaidade parece sempre infantil, boboca, e por que a vaidade das pessoas brancas parece sempre tão natural, aceitável. Quero saber por que eu te invejo, homem branco. É que eu não quero ter barba onde pendurar flores ou posar de lumbersexual do caralho, mas isso parece tão mais autêntico e atraente do que as coisas que eu tenho usado.

Quero saber porque é tão difícil me vestir, se eu tenho mesmo que usar roupa de BBoy de Nova Iorque ou camisa de algodão cru. Quero saber porque minha irmã tem medo de pegar sol. Quero saber por que eu pego tanto no teu pé, homem branco, se tua parca função é simplesmente abdicar, abdicar… A minha é de reinventar ambos: eu e tu, a fim de que eu me ame, de que tu não me esnobe e Pessoinha não sinta mais falta de me provocar desonestamente.

Minha necessidade é outra, minha função é outra, meu ritmo, minha dança, minha música, minhas cores, meu formato, minha poesia, minha ciência. Minha referência é outra, tão milenar quanto recém-nascida: porque estou por desenterrá-la, colhê-la de agora: a negritude onde me reconheça, a singularidade de meu corpo coletivo. Meu corpo coletivo manchado de guerra, escravidão, estupro e desmemorização, fantasiadas pela ideia bonitinha de miscigenação. A singularidade de minha cor, de meu trejeito, de meu rebolado, de minha inventividade, do meu ser matuto e lento da praia, de minha criação que quer sempre ver junto corpo e alma, espírito e matéria, sem separação. A singularidade da cor de minha gente. Minha gente que veio do sol! Eu sou o sol!

jadiel-sol
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